Sunday, December 24, 2017

Poesia do inominável

"Criar é eterno diluir-se
Não se encerra em nenhuma interpretação
Livre mente liquefeita
Cabe em todos os espaços
Por não precisar de espaço algum
Está em qualquer lugar
Desafiando as racionalidades
Revela apenas o que se quer ver
É correnteza no caminho daquele que lê
No Tempo da sua vontade
O hoje é um instante escolhido
Amanhã iluminará muitos outros porquês
Não há intenção além da intuição
A passagem de um todo que caminha em palavras, cores e sons
Misteriosa liberdade
Desapega-se
Não carece de formatos
Antes de em si existir
A Liberdade já estava lá
Indefinível
Incognoscível
Além de tudo que se possa tocar"
Georgia
2016

Saturday, December 2, 2017

O bom senso da expansão

O bom senso da expansão

Tudo que a gente pari
Se torna filho do mundo
E ganha assim uma nova função
O filho não cresce com cordão umbilical
É o mundo que imprime nele a força da expansão
A voz que rompe muros
Nunca esteve presa a nenhuma tradição
Nem ao colo da mãe que protegia sua criação
É sempre o vento que quer ganhar o mundo
Ir além das cordas que bloqueiam sua reverberação
Não há vento que se sustente sem girar o mundo
Nenhum viajante se limita
as fronteiras da sua própria educação
Toda porta que se abre
Traz o vento denovo para sua propagação
Não há bom senso em quem limita
A voz que nasce pra viver sua própria expansão
Nao há como abafar os desdobramentos de uma missão

Georgia, 2017

A crise da liberdade

A crise da liberdade

Só as crises me definem
Minha mutabilidade não precisa de fins
Nem de motivos pra continuar
Desconstruir-me é definitivo
Enquanto no mundo eu precisar ficar
A estabilidade é a carapuça dos intransigentes
Forjamento de quem já desistiu de se buscar
Elogios não me creditam
Nem me permitiram em mim acreditar
Não é possível com tão pouco se contentar
Sendo sempre a pior cegueira
A de quem não consegue se olhar
Por isso as certezas se curvam na crise
Quando o inconformismo precisa reinar
Quebrando os hojes que nunca findam
Libertam um amanhã que precisa respirar
Por isso sigo quebrando permanências
Me descontentando com perenidades
Rejuvenesço em desmoronamentos
Largando mão do que já conheço
Encontro zonas de desconforto
Para viver o sonho das improbabilidades

Georgia, 2017

Batalha das improbabilidades

Batalha das improbabilidades

O intragável desejo de paquerar com o impossível
É mania comum aos inconformados
Sonhadores natos
Limitam as paixões cotidianas
Para temperar o sonho das improbabilidades
Não por sabotagem
Mas para treinamentos
Pois só os já habilitados
Saltam além dos limites impostados
Quebram muros previsíveis
E mesmo assim caminham firmes
Pé rente ao chão
Só porque já foi treinado
Na maratona dos sonhos improváveis
Preparo-me pois para um outro e maior salto
Por isso sigo paquerando com tudo que não é provável
Não nasci com alma de conformada
Eu quero sempre mais de tudo aquilo
Que a qualquer um já foi normatizado
Guerreio na batalha das improbabilidades
Por isso a fé é tatuagem assinalada
Bem no meio da minha cara

Georgia, 2017

Coração selvagem

Coração Selvagem

Eu não sei sustentar um coração de pedra
Meu coração é selva
Mata adentro
Cheiro, bicho e relva
Ora acanhado atrás da moita
Ora fera do desejo devorando alguma coisa
Não há lógica que tudo resolve
Coração estático
Certezas exatas
Meu peito não é feito de matemática
Sou inexata
Irracionalmente desordenada
Avessa a quase todas as ordens pacatas
Carrego um peito-de-porta-escancarada
Quase nunca bati a porta
Só mesmo pra mediocridade que me enoja
Prefiro transitar por entre a relva
Me misturar com a medicina da selva
Virar fumaça e me diluir na névoa
Meu coração sequer precisa de predicado
É no seu miolo que está todo o recado
Já perdeu a corda que o deixava amarrado
Bateu tão forte que já adiantou o seu próprio parto

Georgia, 2017

A doce espera

A doce espera

Eu sou a lenha esperando o fogo
Eu sou a terra fértil esperando a semente
Eu sou a água esperando tua sede
Eu sou a tela em branco esperando a inspiração
Eu sou a espera
De tudo que se fecunda
De tudo que sem o outro não se inunda
Eu sou a outra parte
A dualidade que o teu ser invade
Eu sou o feminino
O útero
O espaço vazio
O ninho pra tudo que for infinito

Georgia, 2017

O tempo do fim

O tempo do fim

Há naturalmente o dia que murcha
Feito flor que não madruga
Quando cai a haste
Nem tudo é vida que perdura
Há dias que findam
Histórias que terminam
Para nunca mais voltar
Como folha que cai
E árvore que tomba
Nem todo ciclo é promessa divina
O fim do dia acalma a noite
Quando o corpo cansa
Enquanto o sol descansa
E o dia morre pra ainda haver esperança
Nem tudo é vida que vinga
Nem tudo é certeza matutina
O sol se põe dando adeus pra esse dia
Virando um passado que ficará pra trás
Como todos ciclos que finalizam
É o passado que no hoje se anuncia
Como carta invertida
Para clarear o que o amanhã finalmente me anuncia

Georgia, 2017