Sunday, December 24, 2017

Poesia do inominável

"Criar é eterno diluir-se
Não se encerra em nenhuma interpretação
Livre mente liquefeita
Cabe em todos os espaços
Por não precisar de espaço algum
Está em qualquer lugar
Desafiando as racionalidades
Revela apenas o que se quer ver
É correnteza no caminho daquele que lê
No Tempo da sua vontade
O hoje é um instante escolhido
Amanhã iluminará muitos outros porquês
Não há intenção além da intuição
A passagem de um todo que caminha em palavras, cores e sons
Misteriosa liberdade
Desapega-se
Não carece de formatos
Antes de em si existir
A Liberdade já estava lá
Indefinível
Incognoscível
Além de tudo que se possa tocar"
Georgia
2016

Saturday, December 2, 2017

O bom senso da expansão

O bom senso da expansão

Tudo que a gente pari
Se torna filho do mundo
E ganha assim uma nova função
O filho não cresce com cordão umbilical
É o mundo que imprime nele a força da expansão
A voz que rompe muros
Nunca esteve presa a nenhuma tradição
Nem ao colo da mãe que protegia sua criação
É sempre o vento que quer ganhar o mundo
Ir além das cordas que bloqueiam sua reverberação
Não há vento que se sustente sem girar o mundo
Nenhum viajante se limita
as fronteiras da sua própria educação
Toda porta que se abre
Traz o vento denovo para sua propagação
Não há bom senso em quem limita
A voz que nasce pra viver sua própria expansão
Nao há como abafar os desdobramentos de uma missão

Georgia, 2017

A crise da liberdade

A crise da liberdade

Só as crises me definem
Minha mutabilidade não precisa de fins
Nem de motivos pra continuar
Desconstruir-me é definitivo
Enquanto no mundo eu precisar ficar
A estabilidade é a carapuça dos intransigentes
Forjamento de quem já desistiu de se buscar
Elogios não me creditam
Nem me permitiram em mim acreditar
Não é possível com tão pouco se contentar
Sendo sempre a pior cegueira
A de quem não consegue se olhar
Por isso as certezas se curvam na crise
Quando o inconformismo precisa reinar
Quebrando os hojes que nunca findam
Libertam um amanhã que precisa respirar
Por isso sigo quebrando permanências
Me descontentando com perenidades
Rejuvenesço em desmoronamentos
Largando mão do que já conheço
Encontro zonas de desconforto
Para viver o sonho das improbabilidades

Georgia, 2017

Batalha das improbabilidades

Batalha das improbabilidades

O intragável desejo de paquerar com o impossível
É mania comum aos inconformados
Sonhadores natos
Limitam as paixões cotidianas
Para temperar o sonho das improbabilidades
Não por sabotagem
Mas para treinamentos
Pois só os já habilitados
Saltam além dos limites impostados
Quebram muros previsíveis
E mesmo assim caminham firmes
Pé rente ao chão
Só porque já foi treinado
Na maratona dos sonhos improváveis
Preparo-me pois para um outro e maior salto
Por isso sigo paquerando com tudo que não é provável
Não nasci com alma de conformada
Eu quero sempre mais de tudo aquilo
Que a qualquer um já foi normatizado
Guerreio na batalha das improbabilidades
Por isso a fé é tatuagem assinalada
Bem no meio da minha cara

Georgia, 2017

Coração selvagem

Coração Selvagem

Eu não sei sustentar um coração de pedra
Meu coração é selva
Mata adentro
Cheiro, bicho e relva
Ora acanhado atrás da moita
Ora fera do desejo devorando alguma coisa
Não há lógica que tudo resolve
Coração estático
Certezas exatas
Meu peito não é feito de matemática
Sou inexata
Irracionalmente desordenada
Avessa a quase todas as ordens pacatas
Carrego um peito-de-porta-escancarada
Quase nunca bati a porta
Só mesmo pra mediocridade que me enoja
Prefiro transitar por entre a relva
Me misturar com a medicina da selva
Virar fumaça e me diluir na névoa
Meu coração sequer precisa de predicado
É no seu miolo que está todo o recado
Já perdeu a corda que o deixava amarrado
Bateu tão forte que já adiantou o seu próprio parto

Georgia, 2017

A doce espera

A doce espera

Eu sou a lenha esperando o fogo
Eu sou a terra fértil esperando a semente
Eu sou a água esperando tua sede
Eu sou a tela em branco esperando a inspiração
Eu sou a espera
De tudo que se fecunda
De tudo que sem o outro não se inunda
Eu sou a outra parte
A dualidade que o teu ser invade
Eu sou o feminino
O útero
O espaço vazio
O ninho pra tudo que for infinito

Georgia, 2017

O tempo do fim

O tempo do fim

Há naturalmente o dia que murcha
Feito flor que não madruga
Quando cai a haste
Nem tudo é vida que perdura
Há dias que findam
Histórias que terminam
Para nunca mais voltar
Como folha que cai
E árvore que tomba
Nem todo ciclo é promessa divina
O fim do dia acalma a noite
Quando o corpo cansa
Enquanto o sol descansa
E o dia morre pra ainda haver esperança
Nem tudo é vida que vinga
Nem tudo é certeza matutina
O sol se põe dando adeus pra esse dia
Virando um passado que ficará pra trás
Como todos ciclos que finalizam
É o passado que no hoje se anuncia
Como carta invertida
Para clarear o que o amanhã finalmente me anuncia

Georgia, 2017

Mulher-de-lata

Mulher-de-lata

 Não sou avessa a todo tipo de personagem
Só sei brincar com minhas verdades
O avesso do esperado
Estou cansada de carregar sempre os mesmos fardos
Construo então meu próprio teatro
Aonde o improviso é quem dará sua charada
Não brinco de coringa sem hora marcada
Minha vida sempre foi como carta lançada
Sem muito tempo pras brincadeiras desnecessárias
Sou só palhaça diante da política mal interpretada
Não brinco de fantoches
Nem tenho tesão quando se anima a criançada
Gosto mais de rock ou alguma coisa pesada
Consciência é cara de lata
Verdade doída
Casca arrancada
Alma escancarada
Precisa de palco
Quando há cor demais
Pra viver vidas enlatadas

Geórgia, 2017

Assassina de saudades

Assassina de saudades

Não costumo cativar a violência
De alguma maneira sigo avessa
Do lado contrário do que quer o noticiário
Não costumo vibrar com lutas sangrentas
Nem com morte que resolva sentença
Sou habituada a matar coisas certeiras
Vermes interiores
Capatazes e repressores
Mato sem pena
Sou uma assassina sangrenta
Rastro de onça
Não nasci pra cultivar a pena
Mato o que me bloqueia
Meu único inimigo que por dentro me permeia
Me resolvo por dentro
Matando a minha maneira
Mas já mato também aquilo que por fora me chateia
Assassino tristezas
Esfaqueio distâncias
Destruo geleiras
E tudo que quiser ser barreira
Sou uma assassina de primeira
Mesmo com a mais tenra idade
Já aprendi a cuidar dessa calamidade
De tempos em tempos estou foragida
Preciso fugir da minha cidade
Sou uma autêntica matadora de saudades

Georgia, 2017

Tempos Saturados

TEMPOS SATURADOS

Coloridos que hoje são só lembranças
Representam um tempo que saturou
Vejo fotografias coloridas
Pra animar meus dias cinzas
Com tempos que não voltam mais
Cores estouradas
Sentimentos que conheceram seu fim
Depois do ápice do meio dia
O sol declina
A intensidade se esvai
A cor se veste de lembrança
Daquilo que não deixa saudade
Só vai embora registrando sua passagem
O corpo pede o frio
E um pouco menos de saturação
Sentimentos ponderados
Azuis mais reservados
Nem todo sentimento aguenta ser verão
É quando o saturado não se sustenta mais
Contrastes coloridos também cansam de se mostrar
Quando a gente cansou de viver no limite
E o alerta do contraste fadiga as retinas
Para cores quentes que minguam depois do meio-dia
Havendo um crepúsculo que desenha seus degradês
Em harmonias que não se saturam
Assim nasce a cor do tempo de uma nova composição

Georgia, 2017

Sunday, November 5, 2017

Tempo de migração

Tempo de Migração

Sou uma ave migratória
Abraçando uma nova partida
Minha casa é o horizonte
E é além do abraço que bato as asas para voar
Como uma cigana que precisa perambular
Assim me sinto sempre que a hora dá
Não há mais estrutura pra me sustentar
É a hora da partida quem direciona minha vida
Como todo ser que é livre e precisa de mais que uma contrapartida
A natureza é quem me acorda
Porque o meu instinto precisa recomeçar

Georgia, 2017

Tempo de ausências

Tempo de ausências

O silêncio que precede o parto
Não é ouvido pra qualquer ausência de ruído
Só a paciência é capaz de captar
Pois é ela quem faz o fio da vida desenrolar
O silêncio que me dá abrigo
É o melhor amigo pra quem perdeu algum sentido
A sina dos surdos é vibrar em outra dimensão
Aonde a ausência faz sentido pra uma melhor qualidade de vibração
De tudo que é necessário reavaliar
Já que o som é muito mais que palavras ao vento jogar
Não venero a surdez
Nem quero deixar de escutar
É apenas o silêncio que pede
O melhor lugar em mim pra falar

Georgia, 2017

A hipocrisia do herói

A HIPOCRISIA DO HERÓI

Eu venho lembrar da resistência
Quando a velha máscara do branco caiu
Depois de catequizar o índio
O herói branco na história sempre repercutiu
Açoite pra acalmar os selvagens
Nego é bicho brabo, justificou
E mais uma vez a elite nos confundiu
Vestiram o algoz de bom moço
Era o maior exemplo a se referir
Contrariando a resistência
Assinando embaixo no que o colonialismo sempre preferiu
Pretos imundos
E índios arredios
Hoje se vestem de pobres e anarquistas
Quem é tua referência, homem alforriado?
Se ainda escuto o toque que vem da senzala
E o açoite que forjou uma nova máscara
Ainda cantam seus hinos para os anjos brancos da igreja bizantina
Fantasiados de uma nova era que de longe não se afirma
Hipocrisias neocoloniais!
O chicote ainda estrala nas costas da minoria
O índio se suicida pra sustentar sua liberdade
E ainda vejo no horizonte um futuro de hipocrisias
O herói branco é capa de revista
E no jornal está escrito o enunciado:
"Sigam o exemplo do herói
Maltratem os pobres
E expulsem os arredios"
Aguardarei para fazer a pergunta que te confirma:
Depois me diga quem é teu guia.

Georgia, 2017

A morte do tempo errado

A MORTE DO TEMPO ERRADO

Tenho repúdio a essa idéia de redemoinho
Como se o tempo fosse um ciclo de penitências
Reciclando as histórias mal vividas
Realinhando o tal karma pra um dia eu ser bem dita
Mal dita foi a história de que tempo é ameaça
Uma outra máscara do deus da punição
Que a promessa do juízo final torna a aplicar
Um torturador que volta sempre pra te assombrar
Carregando um livro de penitências
Trazendo um Juiz pra seu problema solucionar
O Tempo não se mostra pra quem é réu
Nem é agiota que voltou pra te cobrar um papel

Do Tempo eu só quero o natural
Mistério contido no desabrochar da flor
Som que inicia o romper da Aurora
Podium de chegada que encerra o livro com sua história
Tempo é melodia
Do ritmo da vida que me faz vibrar
Enunciado divino
Que aponta pra onde eu quero me lançar
Hora de partir
Hora de voltar
Hora de decidir
Hora de introspectar
É lei imbatível
Que anuncia o ritmo que a vida dá
A cadência que o além me mandou dançar
Pra que o Equilíbrio possa  finalmente reinar

Georgia, 2017

Intimidades salutares

INTIMIDADES SALUTARES

Eu tenho uma vida recheada de carinhos
E uma rotina regada a intimidades
Minha casa é partilhada
Pois meu peito não poderia ser repartido
Não consigo opinar por nenhum partido
Sou negra, índia e branca anarquizada
Por isso sigo apelos que ainda pouco comunico
Vazão interior que me lança em tudo que é abrigo
Sou caçadora de peitos
Colos, ombros e joelhos ardentes
Sou afago que nunca cessa
E um desejo de intimidade que não se contesta
Pra mim o abraço ainda é pouco
Quero o sabor da alma
O furor das estranhas que ainda não fala
E se tiver mais coisa no fundo
Na raiz do íntimo de gente, mulher, criança, mulato e caboclo
É pra lá que eu corro
Sou bicho entranhoso
De todo mundo quero sempre mais um pouco
Contato de alma nua
O corpo pode até estar de burca
Vulnerabilidades pra mim são muito mais atraentes
Adoro gente que é de verdade e que sente
Que tem peito e coração caliente
Intimidade é desvelar o que não se pode mais viver ausente

Georgia, 2017

Santo que a gente gosta

SANTO QUE A GENTE GOSTA

Deve ter um santo que em mim encosta
Sinceramente não há quem diga que não gosta
Porque tem coisa gostosa
Que quando encosta
Só faz vibrar aquilo que a gente concorda
Amor é poesia vibrando na minha corda
E não tem cobra que morda as próprias costas
Pulsação tranquilizante
Mano malandro da encosta
Faz um jazz tocar sem interrupção
Nas cordas de aço que jamais romperão
Canta em mim um encanto
Cheio de canto pra preencher minha pulsão
Faz fagulha incendiar a lenha da precisão
Paixão desperta no colo mansidão
Deixa o prazer moeda que não precisa de contramão
Sou livre direção
Sentido único da via do coração

Georgia, 2017

Coração partido

Coração Partido

A pior politicagem
aquela dos corações partidos
Corrói minh'alma anarquista
Avessa a qualquer demagogia
Meu peito que era poema
Hoje se dilacera
Diante da eleição do melhor caminho
O presidente da minha vida
Que nunca quis opinar
Era sempre voto nulo
Pra fraudar todos os esquemas
Hoje elege a sua própria campanha
Construiu em mim um corpo de partidos
Fragmentadas ideologias
Degladiam-se em busca de voto
Falsificam identidades
Atiram propina
E seduz o povo com todo tipo de armadilha
E as manias de equilíbrio
Não encontram mais um meio termo
A vida que é sempre como a selva
Nunca excluiu de si a cadeia alimentar
Anunciando sempre o pedrador
Que lá no topo há de ficar

Georgia, 2017

Tempo de presentear

Tempo de Presentear

Quando o divino do céu desceu
E um presente a mim ofereceu
Mexeu com minhas ambições
Minh'alma foi ao material
 E lá primeiramente se rendeu
Pois ainda me encobria o véu
Que só o aqui-agora resplandeceu
Minha vida que é um presente que não desbota
No meu momento vive o gineceu
Não há sofrimento na vida que corre no agora
O futuro jamais terá a certeza que meu peito estarreceu
Ao passado que não mais em mim encosta
Não acelera o presente que é só meu
A segurança que não habita em planilhas
Nem nos planos que ainda não nasceu
Me enraizo no presente
Que o Tempo pra mim prometeu
Não deixarei de correr com as águas
Mas me desacelero pra cuidar do que é ainda meu

Georgia, 2017

Tempo do reencontro

Tempo do Reencontro

Pelas faíscas que não me fizeram apagar
Diante da dor e da opressão
De tanto que balançaram minhas folhas
Eu já não via mais em mim nenhuma função
Como árvore que acredita que chegou o momento de tombar
É caminho fatal para quase tudo que não tem utilização
A árvore atrofia
Quando na rotina não brota mais água que sacia
Por isso sigo a perambular pelo mundo
Conheço muito mais de busca
Do que de se fixar em tudo
Não gosto de buscar racionalmente
Quem vai na frente é um desejo latante
Daqueles que sabe o que realmente sente
Entre o que foi e o que será
Abro o peito e me assento no presente
Aonde a certeza do viajante
Alinha o prumo
Abraçando o horizonte
Que só quem é presente pode ganhar

Georgia, 2017

Tempo de Rejuvenescer

Tempo de Rejuvenescer

As minhas melhores memórias
Não moram em dias escaldantes
Sou filha das chuvas de verão
Cresci na refrescancia
E no ar limpo
Que na minha infância a chuva deixou
Sinto-me em casa
Em qualquer espaço refrescante
Mais do que o molhado
Foi o rejuvenescer que me construiu
Não espero o dia amanhecer
Meu recomeço nao é marcado pela luz do Sol
É na mudança do tempo
Que a chuva anuncia
Que eu recomeço meu novo dia
Transcendendo o calor
Que trocou a paz pela agitação
É a bendita chuva
Que traz o aconchego que existe numa manhã de verão

Georgia, 2017

Mito da caverna revisitado

Mito da caverna revisitado

Houve um dia que o Sol olhou pra mim
E talvez por isso me sinta tão diferente
Pois há um mim um desejo ausente
De ter os holofotes sobre mim
Contradições que constroem o meu dilema
Pois há algo de bom que de mim transborda
Não é só cor e poesia no tecer da minha teia
Há tantos segredos que não cabem mais alojados aqui
Mas sigo sem graça sem saber subir no palco
Por mais que eu saiba que é necessário dar esse salto
Sair da caverna que abafa meus poemas
Desfazer o casulo que tira o sentido  de existir da flor de Açucena
E deixar o rastro do arco-íris surgir
Eu sei que o ritmo que nessa altura fomenta
Tirou-me inúmeras e incontáveis vendas
E mesmo com medo da luz que me alumeia
Há algo que me diz que fora do esconderijo
É possível ter uma vida ainda mais inteira
Já fui perseguida por nascer mulher
Chamaram-me de puta, bruxa e feiticeira
Minha preservação se fez escondida na ribanceira
Hoje me contam que é tempo de outras maneiras
E o Sol que diz ser cheio de paciência
Prometeu me deixar respirar
E que meu corpo não vai mais precisar queimar

Georgia, 2017

A presença do presente

A presença do presente

Queria pedir um dia de presente
Pois surpresas não podem ser solicitadas
É sempre a presença meu melhor presente
Para quem dou e para quem me dá
Os anos voam curtos
Os tempos caminham arredios
Caminhos acelerados
Tempos que nunca param de se gastar
E só há um presente que jamais se desfaz
Sendo o único que ainda posso acumular
Todos os outros só vivem a evaporar
Por isso recheio minha presença de presentes
Eu e tu, um só presente
Acumulando presenças
Nesse tempo que se faz presente
A tua presença seria meu melhor presente

Georgia, 2017

A carga da palavra

A carga da palavra

Há pesares que só cabem em palavras
Porque as palavras tem pesos inimagináveis
Coisas que a poesia tenta resolver
Por em prática o que não se poderia reaver
Palavras caem no chão fazendo estrondos
Verdades mal ditas
Injúrias recebidas
Silêncios sulfurosos
Atrofiam gargantas
Pois sequer poderiam ser ditas
Tamanho seria o sufoco
Ao comunicar as cargas abafadas
Poetisam as palavras quando o coração já bate pouco
Cargas soletradas nem sempre podem ser nominadas
Dores entre letras laçadas
Alivia o meu esquema
E a garganta que silenciou pra manter o poema
Dor humana que qualquer um já soletrou um pouco
Ou formulou frases pra não sofrer como louco
Antes que a voz se tornasse o algoz
De uma quebra que não tem emenda
As palavras se resguardam
E o silêncio é quem comanda a batalha das incoerências

Georgia, 2017

Thursday, August 17, 2017

De repente POESIA


Surf filosófico n.indefinido

Surf filosófico n.indefinido

Enquanto eu olhava o mar de fora
Tudo era desesperança
Um mar de calmaria
Que já não seduz mais meus anseios
Mas no mar eu aprendi
Que é lá dentro que eu consigo ver
O que o distanciamento só me ensinou a prever
As previsões que nada dizem
Mascaradas de trauma
Se cristalizaram em julgamentos
Mas o mar...
AH, O MAR...
Esse sim me ensinou a não julgar
Pois surfando em suas ondas
Eu reencontrei algo além do que posso mensurar
E além da desesperança
Peguei a prancha
E quis ir além da calmaria
E há quem lembre que não sou mais a mesma
Nem o mar é mais o mesmo na minha companhia
Abrimos nosso ritual
O enlace do enamoramento
Eu e o Mar
O vento favoreceu
A fé agitou as ondas
E eu também sou fator de vibração
E o mar, ah, o Mar...
Só traz pra gente o que a gente dá
Eu dei a minha fé
Que dentro do Mar vibrou
Enquanto estivemos juntos
Dançamos um só amor
Até a hora da partida
Quando levei as ondas comigo
E ao fim de tudo
Pra calmaria o mar voltou

Georgia, 2017

Escarros poéticos

Escarros poéticos

Enquanto o corpo for profano
Enquanto a vida for pecado
Enquanto sentir estiver errado
Enquanto a mulher for produto do mercado
Mais distante estamos do sagrado
Amarrados a uma vida de miserável
Escondendo o prazer em esconderijos malassombrados
Omitindo a face a um Deus tirano apto a coisas macabras
Que punem os filhos que forem felizes diante da chibatada
Escravos do castigo
E da barganha divinificada
Amarrados no medo
Feito crianças enclausuradas
Reprimindo as alegrias com medo de ser castigada
Abraçando a culpa pois essa foi a história sempre recontada
De um Deus maligno que aponta o dedo
Que castiga e te amarra em karma
Vivem reprimidos com medo de fazer cagada
Então insistem em barganhas
Joelhos sofridos
Cabelos rompidos
Sexo banido
e todo tipo de sacrifício
Que acalme ainda hoje
O pior desejo reprimido
De que Deus ama quem faz sacrifício

Georgia, 2017

Tempo da puberdade

Tempo da puberdade

Agora o que tenho a dizer
São navalhas de sentimento
De alguém que escolheu sentir
E validar aquilo que à minh'alma atiça
Pensamento não me dá vazão
Desfaço-me das razões
E meço a temperatura pra me lançar apenas no que dá tesão
Só acredito naquilo que vira sensação
Dor, amor, não importa
A sina de quem é mais que sobrevivente
E não busca apenas uma liberdade ideológica
Sou alguém cansada de retórica
Mas se na carne a alma extravaza
Faz-me vibrar
Testemunho pois minha existência
É minha carne quem me dá vida
Todo o resto é apenas teoria
À minha mente dou-lhe a função de buscar o que me qualifica
Sou caçadora de sentimento
E minha vida é o eterno apelo
De uma puberdade que rompeu a virgindade
É sempre o novo que desfaz a inocência da castidade

Georgia, 2017

Recado para o Sol

Recado para o Sol

Eu queria um jeito de falar
O que quase ninguém poderia ouvir
O que da boca gera guerra
E que meu coração não aguenta mais coagir
Não posso me expor diante da quimera
Por isso peço ajuda aos mensageiros da selva
Que meu recado rompa toda e qualquer barreira
Pois a justiça é pedra que cai sem fim na minha própria cabeça
Esse valor não me permite mais ficar calada na sarjeta
Já passou o tempo de omitir para manter uma estabilidade passageira

Pois diante de uma nova apropriação
A minha casa que era como a lua
Agora não reflete mais a desejável vibração
Um inquilino mudou a pureza da estação
Nao ouço mais o rádio que vinha da imensidão
Mudaram o estilo
E agora estou vivendo uma outra intenção
Não sei o que fazer
Pois da aldeia não quero me perder
Estou desesperada
E não posso daqui correr
Já que os cegos do meu castelo
São como pedras preciosas que não posso esquecer
Só mesmo quem vem do Sol
Poderá nos socorrer
As pedras caem na minha cabeça
Não será possível dessa vez me abster

Georgia, julho de 2017

Liberdade quilombola

Liberdade quilombola

Recordando o meu quilombo
Venho denovo diante do altar
Nao sigo a sina dos alforriados
Pois não há papel que assine a minha comprobatória
Sou eu mesmo quem luto pela minha história
Pois na minha carne a liberdade é lei que já nasceu exposta
Por isso o quilombo é minha única possível vitória
Quem carrega a luz dessa etnia
Nao pode diante da chibata se subjugar
Nenhum negro quilombola
Acanhou-se diante do apanhar
Nem rebelou-se em tom de revolta
Diante da incoerência do branco que só sabe mandar
É o som do silêncio que conduz a manada
Na direção da Aurora que irá nos revelar
Não devo ao branco minha ira
Nem pago a injustiça com a revolta de uma guerra que só faria matar
Minha fé já me libertou da palmatória
E é no quilombo aonde escrevo minha única possível história
É por conta disso que aqui assino aquilo que ainda desqualifico
O fundamental que habita em todas incoerências filosóficas
Pois a Liberdade é o sobrenome de todo negro quilombola

Georgia, 2017

Poesias digitais

 A alforria do Amor, 2017



 O desapego da flor, 2017


 O passado passa, 2017



 Ilha, 2013

 Porta-ponta-de-agulha, 2017



 Cadência da minh'alma, 2017




 Renascimento da busca, 2017



A libertação do fim do dia, 2017



Tempo de puberdade, 2017

Mar do meu peito

Mar do meu peito

Todos os dias o mar me olha
E nesse encontro
Minha única certeza
É que nunca seremos os mesmos
Sigo a te olhar
Até em dias de tempestade
Nunca deu-me monotonias
Nem deixei de ver em ti novas cores e possibilidades
O teu sal é quem me tempera
Harmoniza meu sabor
E refresca minha alma que tem sede de amanhecer
Animou minha vida com teu frescor
Eternizou minha juventude
Porque aqui dentro do meu peito
Bate o verão de um coração
Que  desconhece qualquer outra estação

Georgia, 2017

Libertação do Algoz

Libertação do Algoz

Desde que aprendi a tolerar a intolerância
Libertei minha alma das chagas dessa projeção
Da minh'alma doída que sofreu de desqualificação
Desqualificou seu algoz
E perdeu tantas vezes a razão
Não tiro mais o direito dos amargurados
Que a todos ao redor enviam suas farpas
Desqualificam até o bem que é partilhado
Por saberem que jamais serão o centro da atenção
Cada Universo tem sua própria órbita
E cada um caminha naquilo que condiz com sua história
Minha alma não nasceu pra sofrer de palmatória
Nasci em tempos de pecados largados nas contradições da escola
Minha liberdade me trouxe até aqui
E continuo libertando aqueles que me sufocaram até em dias de glória
Se ser livre é minha sina
Não teria sentido nenhum prender alguma coisa em mim
Nenhum mal que tenha me castrado
Nem nenhuma faca que tenha me maltratado
À liberdade dou seus direitos
Liberto de mim o mal que me fizeram
Cada um que tome conta da sua convocatória

Georgia, 2017

Queria Eu




Alma de caçador


Sunday, August 6, 2017

Memórias

Memórias.....

Houve um dia
de homens maus
que me levaram
e me quebraram
e ao fogo me atearam
Fui embora desse mundo
Chorei no céu
A forte dor da incompreensão
De uma vida podada
Esfaqueada pela intolerância
Quem sabe chorei as lágrimas da eternidade
Em nuvens solitárias de imensidão
Até um bom amigo me sorrir
Dar-me sua mão
E uma solução
Dei-me novo chão
Entre seus irmãos
Naquela aldeia
Haviam flores
Haviam penas
E o Meu Pai que era o Próprio Coração
Em seus cuidados
Eu era em si toda minha vastidão
Entre crianças e bichinhos
Havia amor para curar toda minha solidão
Havia cura para retornar a por meus pés no chão
Ainda lembro...
Meu Paizinho
Ele era o Amor em encarnação......

2012

Sunday, May 14, 2017

O grito do silêncio

Meu grito travado
Vive no claro fundo calado
Armazém estufado
Civilmente casado
com a velha surda Ignorância
prima da mal dita Intolerância
que me estocam safadas
nos porões desta imunda senzala
(Georgia, 2013)

foto Pierre Verger

O rejuvenescer da velhice



Eu que já me cansei tanto
Com quem dá jeitos de o outro rebaixar
Já cheguei num ponto
Que até cansei de me cansar
Já me desestimulei tanto com quem só semeia descaso
Que até achei que tinha me acostumado
Toda poda no canto errado
Impede que a árvore amadureça
E o que de fato me desmotiva
É essa completa rendição
De quem perdeu a reação
E se acostumou com as injustiças
Se conformou com as incoerências
E pensa em mudar de rota
Por desistir de ser a resistência
Meu desespero pela paz
Me fez fugir de qualquer conflito
Investi em tanta transcendência
Pra de algum jeito encontrar minha inocência
Que fiquei sem polaridade
E a injustiça me expulsou de dentro de casa
Não sinto raiva
Pois o meu Tempo voltou
E mesmo fora de casa a rua nunca me abandonou
A rua me ama
Como o céu ama os passarinhos
Mas algo em mim ainda se pronuncia
Numa discreta exclamação
Não é possível me tirar o ninho
Na minha história o que é antigo não tem função de descartável
São nas relíquias que se encontram as raridades da antiguidade
Sou como o vinho que melhora com a maturidade
O sabor da minha alma com o tempo se torna mais apurado
E minha consistência cada vez mais tem então se encorpado
Quando eu enfim envelheço
E vejo tudo que resistiu ao desapego
Seguro em minhas mãos o que é então tão velho quanto eu
E rejuvenesco em todos os envelhecimentos

Georgia, 2017

Eterna mente

Esperança, humildade e coragem.
Avante..
Leve mente..
Sorriso curioso na mente..
Avante..
Horizonte deslumbrante e reluzente...
Frescor infantil...
Reza fluente..
Sonhar, Amar e Brilhar
Eterna mente
(Georgia, 2013)

Meu Sol Paraibense

Joao pessoa lugar que o sol nasce primeiro, por isso tudo é tão jeito de manhãzinha. A cidade parece até que tem uma alma de velhinha saudavel que gosta de acordar cedo pra caminhar na praia, esticar o corpo, respirar ar puro, amanhecer cedo pra saber envelhecer. Fortaleza é sol a pino, terra dos verdes mares, todo mundo é corpo nu, alma de sereia solta na rua, tem calor de juventude, não existe exaustão, meio dia é toda hora, hora de combustão. O corpo ferve, a juventude é todo dia e sempre tem mais vida pra viver. João Pessoa amanhece madura, Fortaleza amadurece jovem. Chega a noite, João Pessoa dorme cedo pra ser a primeira a ver o Sol nascer. Fortaleza agarrada na linha do Equador, sabe que nunca faltará Sol e abraça a noite sem hora pra acordar.

Sobre ser "Paraibence" e ser dois nordestes em um só coração

Meu coração deixou minha alma nua


A Renda do Amor


Templo de multidões


Liberdade Selvagem


Gosto de conversar com a Natureza


Poema ao Sol


Alma de caçador


O desapego da flor


Libertação do Algoz

Libertação do Algoz

Desde que aprendi a tolerar a intolerância
Libertei minha alma das chagas dessa projeção
Da minh'alma doída que sofreu de desqualificação
Desqualificou seu algoz
E perdeu tantas vezes a razão
Não tiro mais o direito dos amargurados
Que a todos ao redor enviam suas farpas
Desqualificam até o bem que é partilhado
Por saberem que jamais serão o centro da atenção
Cada Universo tem sua própria órbita
E cada um caminha naquilo que condiz com sua história
Minha alma não nasceu pra sofrer de palmatória
Nasci em tempos de pecados largados nas contradições da escola
Minha liberdade me trouxe até aqui
E continuo libertando aqueles que me sufocaram até em dias de glória
Se ser livre é minha sina
Não teria sentido nenhum prender alguma coisa em mim
Nenhum mal que tenha me castrado
Nem nenhuma faca que tenha me maltratado
À liberdade dou seus direitos
Liberto de mim o mal que me fizeram
Cada um que tome conta da sua convocatória

Georgia, 2017

Tuesday, April 18, 2017

Abismo da entrega

Eu que tenho uma vida dedicada a desaprendimentos
Assim os venero por amar me lançar em abismos
do quanto sou apaixonada pelas incertezas
e sou movida pelo entusiasmo que se gera ao me entregar
meu reencontro com Deus é necessário
Pois nasci para me lançar
Me desfazer do que sabia
Para abraçar o que nunca vivi
Seria uma suicida
Se não houvesse algo para me amparar
Eu me despenco como água de cachoeira
Pois só atravessando o que desconheço
Encontro denovo minha vontade de voar
E no berço da minha queda
Renasço para o que deixei desapegar
Abro os olhos no escuro
O vazio me fascina
Do outro lado eu nada sei
Sou seduzida por renascimentos
E poderei me eternizar comendo indefinições
Pois eu sou o instante que sucede a descontrução
E o abandono cego
Que se lança por haver a mais verdadeira esperança
Que o novo sempre será a minha única  provável cristalização

Georgia, 2017

Monday, April 3, 2017

Fruto do sentimento

Fruto do sentimento

Gosto de achar a mim mesma nas coisas simples
Sou como o fruto que eclode
O crescer que dentro do ventre já não mais pode
O sentimento do meu peito também explode
Doce, cítrico ou amargo, não importa
Todos sabores nos alimentam
Uma vez o fruto maduro no chão
Completo um ciclo
Para minha própria vida dou-me o desabrigo
Tudo se encerra em não mais para mim existir
Eu sou do outro
E de todo nutrir que abraça a realidade
Assim vivo sem casa
Eu sou sem morada
Sou o peito do outro, seu corpo, seu coração
Sou fruta que nasceu pra ser entregue
A oferta natural de quem pariu a doação
Para dentro do meu fim poder reincidir
Renascer tudo que só em si não será possível ouvir
No miolo da flor novo néctar há de produzir
Sou gestação intermitente
Que fruto nenhum esgota
A abundância é uma lei recorrente
Me renovo em todas entregas
Uma vez na mão do outro
A florada outra vez me espera
Afim de reiniciar a vida nesse eterno ir-e-vir

Georgia, 2017

Caçadora de referências


Caçei meu sentimento pela tara de farejar
Segui rastros
E não desisti de nenhuma pista
Não caminhei sozinha
Porque não faltaram vozes pra me guiar
Sofri de exclusão
De reflexos incoerentes que só a paciência pôde transpor
Rezei pro mato se romper
E nunca mais parei de me desencantar
A ilusão se despe quase sem pudor
O fim insiste em ser extremamente  sedutor
Mesmo quando o rio esteve seco
Guardei a Ingazeira na memória
Minha única referência que o tempo não iria repor
Mesmo quando no mundo falta amor
E a desunião grita com todo seu torpor
Nas referências me sustento pra seguir mesmo sem nenhum calor
Por todo investimento que ainda posso fazer
Não brilha mais o ouro que outrora mostrou algum valor
Por isso há uma potência que insiste no que me dá prazer
A jóia preciosa que nem meu ego conseguiu vender
E a Ingazeira me lembra que sempre há milagres ainda por ver
De todas curas que a desilusão permitiu transcender
Há uma esperança latente que o atabaque ressoou no meu ser
E a distância da aldeia não é o suficiente pra no bueiro me fazer escorrer
Insisto em flechas que capturem não apenas meu ser
A família é o valor mais precioso que insiste em me fazer viver

Georgia, 2017


Eu Sou


Verbo ser que em tanto se conjuga
São tantas coisas que existem
Dentro desse inquadrável verbo
Ser-mulher: ser-universo
Sou tudo que eu sentir ser
Aonde quer que haja vida
Tudo sou de alguma maneira
Em qualquer canto que se ressoe
Algum recanto que sem encanto ainda cante
Dentro do dó
Até o Si
Em todas as notas fui e serei

Não busco definições
Pois sempre há vida para além do foco da visão
Estou em todos os espaços
Antes do desejo, eu já era
Antes do que é real
Lá serei
Não há separação
A vida está em Tudo
Não há outra razão
Há muitas Vidas
Eu Sou

Georgia, 2017

Eu sou várias



A cada ciclo um novo gozo
Ser tantas águas em um só ser
Não só na poesia
Mas em todas luas que caminho

Descobri ser correnteza
Sou ondas sem fim
É fluindo que encontro minha firmeza

Não sou como o Sol intransmutavel
Nasci mulher
Sou mil facetas
Como todas deusas que os livros permeiam

Não há mulher alguma presa em uma só cabeça
Não somos lineares
Mentira burguesa da vida patriarcal

Não espere de mim uma única beleza
Nao tente me prender com as suas certezas

Sou um desafio diante de tanto enrijecimento
Fluxo feminino
Um instinto que não serve pro seu divertimento

Não sou apenas o recato da esperada gentileza
Estou livre
Jamais serei  reflexo de uma falsa delicadeza

Georgia, 2017

Flor dá Atração

Flor da Atração

Quando tempo perdi longe de mim
Achando que no fruto estava meu fim
Eu sou a flor que se fecunda
A luz do outro é quem me inunda
Sou como uma taça que se preenche
A terra fértil que precisa de semente
Tudo cabe em meu coração
Meu peito aberto não conhece nenhuma limitação
Eu sou a vida contida na espera
Meu cheiro desperta a tara das libélulas
Meu gosto alimenta todas as borboletas
Há desabrochar mesmo quando não é primavera

Me polinizam apenas quem vem de casulos desintegrados
E habitam em territórios​ que na leveza foram colonizados
Não há o que buscar quando se nasce para receber
A flor só perde a haste pra que se possa do fruto comer

Sou o principio da fecundação
O óvulo que veio antes da concepção
O feminino que se iniciou no colo
Toda a vida que brotará do solo
Meu ventre é morada
O recipiente que guarda a substância a ser preservada
Coletor que guarda a água da chuva abençoada
A minha essência é receptiva
A luz do outro é quem me ativa
Eu sou o futuro
Fecunda-me

Georgia, 2017

Renascimento da Flor



Eu que só aprendi a me doar
Busquei em todos caminhos
Uma forma que o meu eu generoso pudesse brilhar
Desgastei até o fim minha doação
E na sina sem fim de dar o fruto
Fiquei muito tempo longe da recepção
E eu que quase nada sei sobre decidir
Pedi aos astros que a natureza intercedesse em meu parecer
Realinharam meu ritmo
E finalmente reencontrei a flor que me dá prazer
O meu instinto que também é receptivo
Me devolveu finalmente o meu equilíbrio
Pois ainda faltam muitos filhos para ver nascer
Nem só do fruto eu poderei viver
Me aconchego no miolo de todas as flores
Recebo de volta minha juventude
E o principio da minha vida pode ser tão bom quanto os resultados
Por sempre haver orgasmo no início de qualquer vida
O prazer explode diante de cada vida que há por vir
Trazendo consigo a inegável condição
Da fartura que enche o pé de manga na época da estação
E a garantia da doçura contida na maturação
Fechando o ciclo que o meu DNA repete sem discriminação

Georgia, 2017

Milagre da Flor

Milagre da flor

Quero falar aqui sobre o miolo da flor
Sobre o centro de todas as coisas
Sobre tudo que se espalha porque no centro havia flor
Ninguém rabisca a vida a esmo
Tudo sempre envolve o próprio ponto de partida
Na flor que me anima
Solitária condição
Que se despiu dos desertos silenciosos
E propagou pacientemente seu existir
Depois que a flor floriu
O entorno se avivou
E a flora trouxe de volta a fauna
Só há instinto se há folha
Ninguém é bicho sem antes semear
Eu semeei apenas uma flor
E o vento do deserto meu pólen espalhou
A flora se reinstalou
E da flor solitária brotou um jardim
e o Olho de Deus nunca mais fechou

Georgia, 2017


Predadora de Belezas

Ilustração novinha saindo do Cosmos 🌠🌠

Predadora de Belezas

Eu não vejo mais a vida com os mesmos olhos
A beleza me comove
E uma névoa transcendente envolve minha mente
Não tenho mais medo da loucura
Já vejo o entorno da maneira que eu quiser
Acendi uma lamparina em meu coração
E o que posso perceber ao meu redor
É efeito do prisma que toca tudo que meu olho envolve
Não caço mais inspirações
Apenas abro os olhos do peito
E não deixo mais de enxergar
A cegueira que se desfez
Devolveu minha lente clarificada
Semeio no chão mais lentidão
Para nenhum cheiro deixar de farejar
Eu só vivo para me inspirar
Sou predadora de beleza
Me seguro em cada pisada
Porque é irresistível o sabor da terra nos meus pés
Devoro o chão que me sustenta
E me misturo com a fertilidade do solo vivo em mutação
Nasci para dar forma aos cheiros
Me sirvo de toda selvageria
Venho do totem que me verticaliza
Da coruja ao crocodilo
Eu sou bicho da cabeça aos pés

Georgia, 2017

Criação da Liberdade



Minha liberdade nunca esteve a venda
Não culpo as interpretações restritivas
Afinal já estou estafada de reconsiderar
Não há culpados quando os equívocos se perpetuam
Cada julgamento mal elaborado
Apenas cansa meus pulmões diante de intermitentes repetições
De todas as flechas inapropriadas
Felizmente não sou comida de qualquer predador
Tantos anos de persistência
Só podem ter me recheado de paciência
De tudo que observo em silêncio
E respiro cansada
Larguei o fumo por pena dos meus pulmões
Que há vidas se cansam de julgamentos equivocados
Não seria a toa a Justiça meu astro protetor
Pois nem mesmo a Mãe tem o poder sobre as crias
Assim liberto tudo que nasce de mim
Não faço medições
Só sei criar o que vem no improviso
Não tenho o poder de medir a quem interessará
Não nasci para legiões manipular
Estou grávida e preciso dar à Luz
A tudo que não tenho o poder de comandar
Pois já estava escrito
Iemanjá tomará em seus braços
E conduzirá o filho liberto ao seu destino almejado

Georgia, 2017

Wednesday, March 1, 2017

Tempo de desembocar


Eu que há tanto tempo não me jogava no mar
Esgotei minha natureza por medo de desembocar
Depois de tanta rejeição
Perdi o prumo e errei a direção da imensidão
Saturei espaços errados que do sal careciam
Encontrei corações imensos que me permitiram existir enquanto curava minhas feridas
De tanto medo do mar
Por guardar tanta falta de mar pra me abraçar
Nem sempre achei oceano que acolhesse o meu tanto amar
Me prendi em represas
Me perdi da minha natureza
Me desencantei em nevoeiros
De tudo que no passado só me levou a escorrer em bueiros
Mas a pulsão da minha fonte é verdadeira
E me perder de mim faz parte da minha natureza
Quando me lanço fora de mim
Feito rio que abraça o mar sem fim
A correnteza é quem me carrega além do que não cabe em mim
Só o que vem de mim não é o suficiente pra me reencontrar em si
É o mar quando me abraça que me faz re-existir
E completar a sina de quem nasceu pra se cristalizar no sim
Georgia, 2017

Tempo de viajante


Tempo não se mede com relógio
E distância não se mensura com nenhum tipo de medição
O tempo aproxima
E também distancia nossas realidades
Há tempos de pura repulsão
E outros que geram potente atração
Mesmo quando o tempo nos atrai
Quando estamos prontos pra viver as mesmas experiências
Há um entre-nós que não existe em calendários
A distancia não se mede com muros nem estradas
Atravessei muitas estradas pra tentar me aproximar
E descobri que estradas não aproximam pessoas
Nem materializam fatos
Só o mar une os continentes
Só a emoção dá a temperatura que aquece a comunhão
Não há fogo que atravesse nenhum oceano
É apenas combustível pra seguir minha embarcação
A paciência navega entre tudo que nos distancia
Todas pessoas que me aproximei tinham sua própria ilha
E nunca foi o suficiente habitar apenas meu continente
Não sou viajante de visuais diferentes
Vivo embarcada em busca de aproximação
Há muito tempo desisti da solidão
Por isso sigo em frente em constante navegação
Em busca de tudo que me coloca em conexão
E redimensiona a distância
Que só o mar distancia ou aproxima
Fazendo valer a pena o tempo de quem viaja
Ancorando no meu coração o saber partir
Assim como a hora certa de tornar a vir
Georgia, 2017

Tempo da maturação


Deram-me um calendário religioso que não escolhi viver
Intragável condição de quem nasceu depois da catequização
Vivo o sincretismo a minha maneira 
Nem só de orixá disfarçado de santo a gente se faz
Meu tempo não se realiza apenas em torno do ciclo do sol
Nem se calcula usando apenas bússola e farol
Não me afeiçuo a datas que não me cercam
Meu calendário não se calcula como o dos adeptos
Nem me alinho em dias que não me dizem quase nada
Apenas me sirvo por tentar ser um pouco mais social
E na realidade mundana tambem me ancorar
Meu ritmo interno escolheu habitar entre o fruto e a flor
Entre tudo que desemboca o que um dia se fecundou
Todo feito que um dia foi sedução
É efeito natural da beleza colocada em exaltação
A fartura que vira alimento quando cai no chão
Batizando a realidade com a natureza da maturidade
Traz o melhor sabor em tudo que é nutrição
A doçura está contida em tudo que é maduro
E no que fatalmente nos alimenta apenas no tempo de maturação
Georgia, 2017

Desabafos esperançosos


De tanto desafeto que me consumiu
Busco alento em alguma claridade
Que minha consciência ainda não captou
Das indiferenças que jamais absorvi
Mesmo a compaixão que consegui ouvir
O suficiente dela nao apreendi
De quem nos vira as costas
Os motivos sei que entendi
E a liberdade ao outro que ofereci
Nem sempre é o necessário pra da mágoa emergir
Não preciso fingir ser nenhuma das muralhas que já subi
A força com a qual eu realmente aprendi
Mora no reconhecimento de tudo que ainda não transcendi
O pouso seguro que nesse processo reconheci
Habita em tudo aquilo que ainda não consegui
E o pesar sincero de quem almeja muito mais
É a condição necessária que com a lua compreendi
Quantos passos almejo dar
E quantas montanhas ainda quero escalar
Aonde habitam meus reais motivos
De tudo que ainda preciso concertar
E de quantas coisas em meu domínio não podem habitar
Prefiro à aridez me entregar
Na esperança do verde que um dia pode brotar
Os desafetos não me cansam
Nem tampouco são as vigas que me levantam
Prefiro buscar as relevâncias
Que o poder da transformação é capaz de doar
De toda semente que já vi germinar
Me rendo ao que na natureza nunca se pôde negar
No amanhã que a chuva pode transformar
Sou romeira em todas terras secas
Entregue a fé que movimenta as impossibilidades
Sem chapéu de palha que contenha o calor do sol
Sustento o excesso de claridade que castiga a realidade
Afim de milagres cotidianos que nenhum preto velho negou a probabilidade
Georgia, 2017

Religião mulher


Chamaram de bruxa
Eva, a pecadora
Ou ainda Madalena
Uma pessoa impura
Mas como ser uma criatura suja
Se é teu corpo que sustenta todo bebê puro?
Como pode ser uma alma imunda
Se foi teu corpo que alimentou todo homem que já é maduro?
Mulher é vida
É feito a lua
Que na penumbra oculta
Revela a face encarnada
De qualquer alma pura
Mulher é tempo
Nunca pára com seus arrodeios
Hora cheia, minuto mingua
É ciclo vivo
Todo mês estoura
O que seu período aglutina
Mulher é sangue
É natureza bruta
Força selvagem
Disseram louca
E outros puta
A vida não pára
E derrama denovo teu sangue
Devolve à terra essa injúria impune
Mulher é ventre
É colo quente
Dois corações ardentes
Um no peito preenche toda casa de nutriente
Do outro pulsa o ninho que fez nascer todo ser vivente
Mulher é templo
Reconexão
O religare que não precisa de doutrinação
Caminho eterno de sacerdócio
Sendo além de qualquer barreira
Uma fera que jamais entrará em extinção
Incontestável natureza esbravejante
 Perpetuando a espécie na sua irrefutável missão
Georgia, 2017

Porto de sanidade


Sou tão cheia de segredos
Que duvidariam de mim ate os mais esotéricos
Minha mente que não teme as impossibilidades
É refém de uma criança que não se deixa vacilar
Minha jóia rara que o marujo guardou
Nunca deixou um dia sequer de me ensinar a acreditar
Estrela menina que pulsa em meu peito
Jóia rara do meu viver
Apenas revelo o sonho quando cristalizado
Mas mesmo assim não quebram a fronteira do aceitável
Por isso sigo com paciência de baobá
E abraço a vida com meus galhos de gameleira
Escuto vozes que ressoam de dentro de mim
E esse é o alívio que me guiou no meu mar sem fim
Todas perguntas tiveram respostas
Se a natureza não confirmasse o diálogo que nasce de si
Essa história podia ter me levado até o hospício ou algo assim
A natureza me alforriou
A loucura do homem se afastou
E os livros que me emprestaram perderam o sentido
E até mesmo quase todo seu valor
Acredito no vento
Nos pássaros, na lua e nas estrelas
Porto da minha sanidade
Minha vida hoje só tem sentido
Porque eu a vi existir na natureza
Georgia, 2017

Possuída pelo Tempo


O tempo escorre em minhas mãos
Apenas por ser força bruta
Atiçada em plena ebulição
Não basta viver sua força
Ele sempre quer ser percebido
Não tenho juízo o suficiente para vivê-lo
Ele é Deus do jeito mais claro que tenho visto
Artimanhas infinitas desabrocham
Da flor do tempo que há em mim
Meus trinta anos se vestiriam de loucura
Se possuísse meu corpo pra morar dentro de mim
Contenho-me com tuas peraltices que se mostram pontuais
Vestida de tempo apenas nas notícias dos jornais
Na tua frente sou cabeça de menina ainda cheia de coisas banais
E mesmo diante das impossibilidades em nossos lances carnais
Sempre o percebo enquanto lembro que somos mais que simples mortais
A tua força que escorre mesmo sem eu merecer
Além de brinde
Não gera ônus
É bônus sempre
Mesmo se eu não perceber
A mim se volta
Não há revolta
Apenas apostas
Que no espelho se mostram
Em tua cara e coroa
Todos meus receios se esgotam
Tudo que eu tenho coloco em jogo pra tua vitória
Por isso que a mim sempre se mostra
E no teatro da sua fascinação
Brinca com Deus
É criança, mulher e ancião
Nos encaixa ser etéreo e mente
aonde quiser tornar real
O destino irremediável da sua condição
Georgia, 2017

Caçadora de essências


O óbvio continuará sendo intrigante
Pois as revelações não me convencem
Caminho mata a dentro precavida
Seduzida pelos mistérios
Até perceber que os persigo
Não há segredo que sustente minha busca
Minha curiosidade não a troco por descobrimentos
Não barganho em busca de revelações
Nem me fascino com mistérios que enfeitiçam minha percepção
Nem me deixo seduzir por nenhuma conversa velada
Não sou caçadora de mistérios
A magia revelada é o porto da minha alma desmascarada
Não preciso buscá-la
O mar me carrega na sua eterna navegação
Cada véu que do corpo cai
É condição natural de todo espírito que se volta para sua nudez
Perseguidora de verdades
Tenho fome de transparências
Sou caçadora de essências
E de tudo que se alinha com a minha subsistência
Substância suficiente
Dentro do peito há a fartura que me preenche
Não há competição que desalinhe a síntese da comunhão
Nem há mistério que nos desligue a consciência da precisão
A simplicidade não se reproduz em nenhuma trilha regada a fascinação
A claridade de todo Sol que nasce
Clareia o requinte que só a rusticidade faz realce
a vida É
Simples mente
Georgia, 2017

Portal dos miseráveis


Ó, miseráveis, recuso-me em abrir a porta
Não me vencem as picuinhas
Muito menos as mediocridades
Nasci regada a exageros
A abundância que nunca rima com arrogância
É avessa a individualismo
Alma rasa em mim não se engancha
Não nasci para mendigar meu interior
Jogos de conveniência não desbancam meus poemas
Rasgo as páginas que não escrevi
E me recuso a desenhar flores que não plantei
Meu peito é rio de leite nutridor
Não vim ao mundo feita para guardar rancor
Muito menos pra viver com pouco
Ou merecer pouco valor
Minha moeda que não se converte fora do meu ideal
Não é suporte de mulher medieval
Minha brutalidade mora na minha consciência habitual
Sou besta fera a cercar todo meu capital
Minha riqueza que não cessa pra sobreviver em meios patriarcais
Esse equilíbrio nunca alimentou meu verdadeiro carnaval
Sou alma que se joga sem freio pra segurar o peito
As únicas referências que guardo são alavanca pra minha natureza real
Não há verdade que fuja do que cravado no centro está
Sou amor antigo sem pressa a se revelar
Pois foi na eternidade que eu me converti e decidi morar
Georgia, 2017

Monday, February 6, 2017

Museu da eternidade



Não nasci pra me enquadrar ao mundo
Nem quero que o mundo se enquadre a mim
O mundo é apenas o laboratório da minha terra
E minha arte é a alquimia que carrego em mim

Não carrego pedras apenas para seguir as regras
A lei que me rege não funciona assim
Das incoerências sociais que não me encaixo
Encontro meus meios de não morrer dentro de mim

Antigamente já era hora da morte com a minha idade
A voz do peito sempre nos levava ao fim
A decomposição só me apetece ainda hoje
Graças ao que a justiça disse que nunca fez parte de mim

De tudo aquilo que no Tempo entra em deterioração
Faz da vida uma constante escavação
E em mim só restam artefatos e relíquias
Pois foram elas que se alinharam com minha verdadeira sina

O precioso que quase não tem a possibilidade de fim
E o valor do ouro que não baseio no espelho e pente que vem do estrangeiro para mim
A relíquia está naquilo que o Tempo mostrou que se eterniza
E a coleção do museu da minha realidade que para sempre minha existência anima

Georgia, 2017

Hipocrisias familiares



Não me interessa herdar doenças
De quem veio antes nem tudo se aproveita
Na minha lógica a família não é um sistema de casta
Aonde do antigo tudo se aproveita
E o filho proibido de sorrir está
Pois no cabresto a alegria não combina com se dedicar

Há que se reciclar
Como a criança que traz o avô de volta à vida
Não há porque se desqualificar o resto da família
Por uma hierarquia feudal desconectada
Que só volta a vida quando fragmentada se reafirma

Dos crânios rabugentos que não suportam a alegria
Toda criança vira peste que de nada se tira
Quando a inocência não encanta a alma do enrijecido
Há que se perguntar aonde vibra a perpetuação da instituição família
Da pirâmide que estrutura quem me trouxe sabedoria
O velho serve de cacunda pra criança que a luz do céu anuncia

Georgia, 2017

Sunday, February 5, 2017

Amor de viajante



Mais uma vez abracei a estrada
Há muito tempo não nos programamos
Simplesmente nos queremos
Nossa paixão não gera frisson
Eu e a estrada vivemos um amor antigo
Desses que já não gera ansiedades
Nem precisamos nos organizar previamente
Ou criar expectativas que aumentem a vontade de se tocar
O destino foi quem nos deu liga
E nossa união é uma cabaça cheia de magia

Não repito dias
Eu nunca sou a mesma
Só caminho em estradas que não sei para onde vou
Pois só assim posso saciar minha espontaneidade
E viver de fato minha criatividade
Preciso de caminhos desconhecidos
Preciso de destinos indefinidos
Além do errado sigo o mapa dos tesouros escondidos

Já foi dito que é sina de caminhante
Descobrir a vida
Somente enquanto se caminha
Assim abraço esse poderoso instante
Que se revela a cada passo do meu eu viajante
Não tenho pressa
Mas também nao sou vacilante
O vento é quem sopra na minha linha
E traça a rota do meu itinerante
Eu sei que a gravidade é quem me aglutina
Mas é irresistível viver como um ser errante

Georgia, 2017

Hipocrisias amorosas



Minha liberdade que as vezes dá vertigem
Não é fato torto nem solto ao léu
Dar sem receber é a maior falácia de quem não mora no céu
Não há abraço que gere afagos
Quando apenas um lado promove força e direção
Não há afeto que se sustente através da manipulação
Preparar terrenos é mania de quem quer ter controle da situação
Está num planeta longe e não rima com libertação

Amor é um caminho ao meio
Não há trem que pare para subir devaneios
Das mentiras sentidas que guardei calada
Não tem sentido carregar hipocrisia dentro da mala
Sou também mulher malandra
Por isso não me visto mais com roupa de otária
Nao engulo discurso que não se materializa além da casca
Guardo os pés atrás enquanto jogo com todas minhas cartas
Meu destino não é saga de barata
Desculpe meu caro amigo
Mas eu me amo
E não me lanço em história mal contada

Georgia, 2017

Thursday, February 2, 2017

Morada da Deusa


O feminino é morada de infinitos mistérios
Recanto do subjetivo
Casa oculta, câmara escura
De lá de dentro quase nada sabemos
Nosso berço, de onde nascemos
Fonte de prazer
Casa do poder
De ser o que se quiser ser
Criar qualquer coisa que o desejo nos faça ferver
Perseguidores da satisfação
Não há culpa que possibilite essa transição
Da liberdade de ir além de qualquer conceito
Da miserável margem de viver apenas rasteiros
O corpo é muito mais que um simples espelho
E o prazer não merece cercar-se em nenhum cativeiro
Das paixões eternamente criativas
Cada lampejo e odor envolvem infinita magia
Muito mais que uma tela pintada
Muito além das palavras escritas
Perpetuação infinita das verdades cativas
Recriar tudo aquilo que reacende as faíscas
Numa fogueira que não só transcende, inebria
Traz de volta as paixões escondidas
Sê meu Deus que serei tua Vida
Georgia, 2017

Comum Idade


Meu lar é um Oceano
Janaína abençoou nossa casa
E decidiu por aqui ficar
Afastou as indiferenças
Levou com ela tudo que fragmentasse
Aprofundou os vínculos
E fortaleceu nossa comum idade
O rio que nos conduzia
Lançou-se mar a dentro
A doçura mergulhou no sal
E por um instante teve medo de perder o sabor
Mas eis que o mar nos purificou
Lapidou cada cristal de açúcar
A fartura se renovou
O amor mais profundo ficou
Janaína se fez de concha em cima do nosso altar
E a imensidão do mar nunca mais deixou de nos aproximar
Georgia, 2017

Desabafos silenciosos


O silêncio que permeia minha palavra
É como a chuva sentida desta madrugada
Do burburinho que muda quase toda a casa
O som interior precisa de tempo pra lançar a próxima entoada
Muitas páginas se encerraram
E em mim acendeu a tão almejada lamparina
De uma qualidade de expressão que abre diversas sinas
A voz íntima se refaz
E a poesia deixou de ser só mais uma linha
Está além das páginas que apenas viram
É diálogo que no inconsciente se anuncia
E refaz o caminho daquele que a frase lia
O mistério que envolve qualquer museu
Conduz ao longo de incontáveis gerações
Algo que o pintor jamais perdeu
A poesia não é como a faísca que se desfez
Se alinhou e reviveu pra qualquer freguês
Moderninha e ecológica
Desistiu de morrer papel mais uma vez
A palavra voou
Virou foguete
E lá em cima do céu
Rabiscou um lembrete
Há que se escrever estrelas
Há que se viver sem nenhuma estribeira
Perambular palavra por qualquer espaço
Eis o sonho que se anuncia quase que materializado
A poesia era a flor que frutificou
E agora é meu novo corpo já embalsamado
Georgia, 2017

A falácia dos desapegos sem sabedoria


Desapegar-se é inevitável
Assim como as gotas se desapegam do mar
Assim como a nuvem se desapega de si mesma
E volta para a terra e nos faz regar
As folhas caem das árvores
As flores em prol dos frutos deixam de embelezar
De nada adianta lutar por se desapegar
Pois algo maior que nós sempre o fará
A natureza no lugar errado
É feito peixe vivendo em aquário
Como quem desapega de si para viver como miserável
Há que se ter sabedoria
A vida não é uma desconstrução sem regalia
Desapegados que abraçam a infelicidade
Esquecidos do direito de escolher
Desapegaram-se do querer
E viveram a margem do seu próprio ser
Perderam o prazer autêntico
E engoliram a depressão sem perceber
Desapegaram-se da voz interior
E viveram reféns do seu próprio desvalor
O fato que meu juízo persegue
É achar o peso coerente a se liberar
Muitas vezes o melhor desapego
É o de querer sempre se desapegar
Desapegar-se da falta de abraços
E da mania de achar que tudo está favorável
Me desapego de tudo que me tira da prosperidade
Sou um flor que nunca cansa de receber afagos
Minha alma é abundante
Essa é a história que lapido d'un jeito cada vez menos intrigante
Sou flor dourada
Minha natureza é triunfante
A neutralidade que é fruto da transcendência
É o salão aberto aonde dança a minha verdadeira essência
Georgia, 2017

O barquinho dos sentimentais


O tempo provou
O que a paciência sempre desacreditou
O valor de meninas sentimentais
Seduzidas por sonhos sem raiz
Bobagem infantil, dizem os incrédulos
Por isso os sonhos existem em silêncio
Para protegê-los dos que desconhecem a pulsão da pureza
Que é atraída eternamente por sentimentalismos
Nao desacredita do quanto de amor pode receber
Só o excesso de sensibilidade traz a vida pro presente
Diante de um mundo carregado de razão
Não há ciência que se sustente sem emoção
A rigidez fragiliza os metodos
E estátuas de gesso perdem as partes a cada mudança
No balanço do meu barco não cabem pedaços fragilizados
Só corações carregados de sensibilidade
Desses que o mundo tantas vezes descartou
E o juízo do desamor desqualificou
O tempo testemunhou
E o sentimentalismo se renovou
O cor de rosa que minha inocência pintou
É o cristal do amor que minha alma nunca duvidou
Georgia, 2017

Friday, January 27, 2017

Existência indestrutível


Sinto a natureza ao meu redor
E toda eternidade que nos cerca
Eu e ela devemos ser um só
O sol nunca deixará de me aquecer
Nem o vento de me balançar
O acaso  batiza meu dia a dia
E de alguma maneira somos indestrutíveis
Ninguém apagará o azul do céu
Nem as folhas deixarão de cintilar seu verde sem fel

O corpo que em mim habita
É eterno em sua transformação
Continuará eternamente terra
Como todos os outros que minha alma já habitou

Eu sou eterna
Como tudo que for e vier da vida
E não se pode destruir
O vento que sempre sopra
Habita em minha mente
Sou intermitente
Eu sou todas as histórias que já vivi
E carrego na coroa todo o futuro que há por vir

Na minha genética estao contidas todas as composições
Que entendem o que são rios, árvores e tufões
E de toda a eternidade que for natural
Por isso é tão empoderada
Das árvores que lembrarão que são árvores
Desabrocharão as flores que já carrego na minha impressão
Num futuro carregado de caminhos já aprendidos
Surgiram os frutos que doarão novas sementes
Nessa eterna Samsara
Que é re-existir

Georgia, 2017

Nudez Natural


Ninguém pode acelerar o rio
Assim como ninguém pode mandar o rio nascer
Só o Tempo é pleno em seus mistérios
Cria declives ao longo do caminho
Deixa a vida mais sinuosa
E com a cautela divina anuncia a próxima tromba d'água

Nada pior do que perder o curso
Sair do fluxo
Por uma pressa antinatural
Quão maior a fluidez
Mais o caminho segue sem escassez
O milagre se alinha ao cotidiano
E descobrir o véu se torna desnecessário
Se a vida é um eterno desnudar-se
Não há pressa que seduza nenhum olhar

Georgia, 2017

Paixão alforriada


Ainda sinto saudade das paixões desmedidas
Diversas vezes minha alma foi assim tão remexida
Paixão é o zero
Ponto de largada de toda alma bandida
A maturidade, uma safada
Não tem sentido ser a única parte inquerida
Não sei se já busquei quase tudo que queria achar
Mas já fazem muitos anos que o zero não abre a porta do meu despertar
Ou será que a seletividade me roubou a bandida
E apagou o feitiço de tudo aquilo que cega e fascina
Culpa do prazer que se expande na sedução cotidiana
E da liberdade que alforriou os desejos
Hoje perambulam por aí sem gerar quase nenhum atrito
Paixões cotidianas não lampejam nenhum frisson
São amigas gaiatas
Com todo o direito pra expressar sua emoção
Todos os dias o fogo passeia solto
Por isso não tem roubado mais o fôlego do povo
Não saqueiam o centro da equação
Nem destroem o que os impedem na sua locomoção
A liberdade da noite é a conquista da boêmia
Que não precisa mais de bares nem botecos pra viver sua anarquia
Conversam entre si acerca das cenas da próxima magia
Tem em todas as ruas sua passagem livre
Já que conquistou de volta a segurança que habita em sua ousadia

Georgia, 2017

Monday, January 23, 2017

A voz do silêncio

A voz do silêncio

O silêncio que não se propaga para todos ouvidos
Não é fato consumado
Apenas para quem quer ouví-lo
O silêncio é a voz mais barata do mercado
Estranha-me a excitação dos que só viveram diante do silêncio
Habituados a falas que nada dizem
E discursos desalinhados com a consistência
São como crianças diante do ruído de qualquer manifestação autêntica

A voz é ritmo
Que só caminha ao lado do Tempo
A poesia, cria minha
É a voz da vida que vibra em infinitas melodias
Não uso drogas
Apenas me concentro
Logo pois não há que se criar espaços
Não há encanto naquele que luta pra ressoar o seu canto
Feito robô de alguma guerra das estrelas
Não me apetece abrir caminhos para fora
Sou guerreira a minha maneira
Abro os caminhos que afetam minha expansão
O brilho que me interessa só flui a partir do centro do meu coração
Abro todos os espaços possíveis para a minha essencializacao

Não me seduz disputar por um lugar na vida das novelas
Essa história não combina com os dados que preenchem meu folhetim
Não estou aqui na vida à toa apenas para ganhar o meu dimdim
Nem prestígio por só viver o que nasceu de mim
Não nasci pra lutar pelo meu espaço
Só acredito no espaço que ja nasceu por dentro
Quase todo resto é conversa de falsos
Não é a voz que faz a gente ser verdadeiramente amado
Só não gosto de gastar saliva com quem não é um chato
Só falo o que vibro diante de quem é imensamente amado

Georgia, 2017

Som do amor

Som do amor

Amor é canção invisível ressoando no espaço
Sou alma de passarinho
Me embalando em cada nota imprevisível
A eterna fluidez das canções matinais
Ninguém pode ver as canções
É inviável, tenho dito
Tudo que é misterioso
E que não vejo
E sinto no corpo, na carne
Me toca, porque ouço
O amor é invisível
Ninguém soube dizer o que era o amor
Mas todo dia alguém vibra e canta
Enche todos os poros do corpo de encanto
O corpo vibra, volta à vida
E o recanto amoroso se preenche novamente
O preenchimento que só o invisível sabe dar
As notas invisíveis são como a força do ar
Correndo em minhas veias: oxigênio
Não há sangue sem hemoglobina
Não a vida que se perpetue de maneira previsível
O amor é a molécula oculta que não desgruda da minha corrente sanguínea

Georgia, 2017

Fruto oculto da neutralidade

Fruto oculto da neutralidade

Inegável sedução a que me lança rumo a libertação
Vazios indiferentes não alimentam minha pulsão
Tudo flui a sua maneira
Enquanto me esvazio sem moderação
Apenas me concentro nas vibrações que ressoam na mesma conexão
Não me interessa a mera manutenção
Nem faço meta em nenhuma relação
Meu instinto de preservação não se alimenta de medos nem condenação
O fato que me encerra é que não há nada a se perder
Uma vez que não há nada a se possuir
Apenas valorizo as conquistas de cada qualificação

Não compartilho conveniências
Nem faço par com a vitimização
Me desencanta qualquer tipo de favoritismo
O amor genuíno que reverbera não precisa de aprovação
Não dou passos em busca de recompensas
Nem me lanço em estórias que não alimentam minha doação
O equilíbrio que me rege se alimenta apenas das autênticas exaltações
Uma euforia poética que não se encerra em julgamentos
É o acolhimento do presente em sua desmascarada aceitação
A arte é sina não apenas pela força motriz da criação
É lei incorruptível que garante a liberdade de expressão
Nem todas parteiras de vida
Mas de alguma maneira neutralizam a putrefação

A liberdade que não se cansa das neutralidades
É movida apenas pela flor da simplicidade
Das temporalidades que ensinam respeito
E da impessoalidade que se dilui na coletividade
Aguardando o som de um desejo jamais almejado
Que mobilize a fera que caminha na beira da própria extinção
E quem sabe assim se acenda a verdadeira fogueira
Que anuncia o espírito que quer de fato sua reencarnação

Georgia, 2017

Saturday, January 21, 2017

Buscadora de passados

Buscadora de passados

Preciso perder as referências pra buscar o meu real encanto
Nesse quase tudo que descobri perambulando
É por isso que rodo meio mundo afora
Caçando sinais que me tragam de volta a mim
Apenas busco meu lugar no espaço
Que forma ou função não é o suficiente pra me preencher nessa vazão
Sou filosofia viva sempre a se manifestar
Num vão subjetivo que algumas pedras são capazes de estruturar
Não há passo que eu dê sem um lugar prévio a se caçar
Lanço as flechas assim que me sinaliza o tempo
E ja adentro a mata carregando comigo o alimento
Só por isso sou pedra firme em meu presente
Não ando a esmo desprecavida
A firmeza do meu presente é fruto do que já cacei
Não falo de tempos espaçados em distantes complexidades
Minha antiguidade é base que as vezes eu preciso estar
Todos os dias na mata eu preciso entrar
Sempre a tempo para que no agora já situado eu consiga estar
Não me interessam extensas reflexões
Carrego a filosofia que gera tudo que é possível criar
Sou todas as coisas que meu ontem buscou
Num passado que meu corpo ainda não estudou
E busco a mim mesma nesse eterno reencontrar
Sou caça e caçadora de mim mesma
Um som, um espaço, um cheiro
Tudo é cor na tela que eu decidir pintar
Tudo é vida na atmosfera que minha alma confia ao se revelar
Não sou produto do meio
Nem reflexo de imediatismos
Sou o passado que caça espaços
E jamais alimenta nevoeiros
Apenas oferece os verdadeiros presentes
Que animam uma estrutura que seja perceptível a qualquer estrangeiro
E só assim minha terra ganhou sentido
Sendo o singelo laboratório de minhas veladas alquimias
Não há ciência sem que se oriente o ar
Assim como vive o Sol sempre a se Orientar

Georgia, 2017

Maternidade magnética

Maternidade magnética

Sinto-me totalmente abduzida pela rotina
Aterrissei no dia-a-dia que tinha esquecido que existia
Deixei a vida me sugar em todas situações que eu me fizer útil
Quase não tomo decisoes
Quase não vivo meus desejos
Estou sempre sendo chamada em algum lugar
E discordo de quem disse que a poesia é a única virtude do inútil
Poeta velho amigo talvez não desabrochou outras realidades
Nem só de poesia vive meu dia-a-dia
Todo dia o galo canta me informando aonde começará meu dia
E a noite me ilumina pois tem gente que não recebe mais amor de dia

Há no mundo muita escuta pra quem carece de atenção
O grito aflito me atrai feito imã poderoso
Me abduz com um magnetismo gigantesco
E a sina da minha rotina é acolher todas emoções decaídas
Filhos da desesperança
Não há tempo pro lúdico
Quando a cura está segurando a mão da necessidade
O olho no olho que se apagou na pobreza capitalista
É a moeda que traz de volta a prosperidade
O desabafar sincero de quem reencontrou a confiança
É o alívio natural de quem no mundo só levou cortadas
Poder se ouvir todas insanidades sem o abraço da culpa
Nem a direção de um caminho correto
É o bálsamo de quem cansou de ser manipulado
Apenas poder acolher um presente imperfeito
Num mundo de extensas modulações
Não há composição que sustente o acolhimento no futuro
A vida pede colo no agora
E um corpo só as vezes parece pouco pra tanto amor que o mundo quer sugar
O problema não está no filho que não quer largar o peito
É não poder ter mais seio pra toda fome que o bendito imã me manda saciar

Georgia, 2017

Desabafos amorosos

Desabafos amorosos

Não me interessa camuflar imperfeições
Nem bancar muralhas que eu jamais virei a ser
Sigo verdadeiramente cansada de achismos antiquados
Recheados de velharias
Minha casa preservo com o mínimo de quinquilharia
Abandonei as repulsas
Me desfiz de adagas
Não há mais grades que forcem meu grito revolto
Não luto nem brigo mais diante das injustiças
A fogueira da heresia finalmente se apagou
Não há mais do que me proteger
Já desisti de ser esse tipo de guerreira
Caminho paciente em nova mente
E apenas choro meu alívio meio desnorteada
Diante de alguns espaços criados
Que minha consciência jamais caminhou por lá
Alivio meu coração no instante do segundo
Não convém dar compasso a máscaras em nenhum desabrochar
O cotidiano do meu pulsar é captado por qualquer um que de abraços precisar
Meu colo aberto foi Deus quem me mandou criar
E assim encontrei o amor diante dos abandonos consistentes
Se não houvesse a escuridão eu jamais buscaria em mim essa luz
E é só por isso que nunca mais deixarei de amar

Georgia, 2017

Água de peregrino

Água de peregrino

Pela força das circunstâncias
A vida me lançou rumo ao meu coração
O amor não se pode racionalizar
Nem entendido a partir de incoerentes interpretações
A água viva só é sentida pelos que tem sede
Caminhando desertos amuados
Corpo cansado depois de tanto açoite
Guardei em todas bromélias água a se doar
O milagre que conduziu os viajantes
No silêncio que só o sentimento sabe captar
Não é possível perceber o milagre quando não se tem sede
Os peregrinos sim
Sedentos por horizontes
Desafiam a própria morte em busca da liberdade
A misericórdia não esperou recomendações
Nem autorizações para ser decifrada
A vida é quem nasceu urgente
Espinhenta como os cactus sertanejos
Nunca deixou de florir mesmo sem cabimento ou consideração
Pois o valor da água só conhecem os que tem sede
Há que se espetar a mão dos desavisados
Pois a urgência da vida nunca pode se deixar pra lá
Todo aquele que atravessa o desconhecido
Sabe o valor que existe na água dada a todo peregrino

Georgia, 2017

Índia descolonizada

Índia descolonizada

De todos os riscos que envolvem a liberdade
Caem os cascalhos no chão que aterrorizam as multidões
Não posso mais me doar com sacrifícios
Nem há luz no que me seduz por medo
Busco apenas conexões sinceras
Dessas que não há racionalidade para explicar
Porque algo sem culpas simplesmente é o que é
Não queimo mais na fogueira cristã
O diabo que me perseguiu morreu de febre terçã
Não há mais a possibilidade de abandonos
O favoritismo não se contrasta mais com o ser-submisso
O caminho do meio traz de volta a liberdade
Não proclamo austeridades
Apenas me destaco de exagerados contrastes
Da irresponsabilidade que não me enaltece
A maturidade das perdas oferece a melhor oferenda
De que nenhuma infantilidade foi capaz de suportar
A ousadia que apenas as sutilezas são capazes de ancorar
O fogo autêntico que brota da minha natureza
Já cansei de me movimentar pela força dos chicotes
Não há transparência em nenhum índio preso em nevoeiros
Hoje me devolvo a mim mesma
E compreendo as rebeldias que se desapegam
De toda uma ancestralidade guerreira presa em cativeiros
Minha liberdade indígena que demorei tanto pra captar
Presa a tantos conceitos emprestados
Sofri demais amarrada a tanta catequese
Caminho no mato novamente que mora dentro de mim
A maior liberdade que corre em minhas veias
É aquela que brota de dentro da natureza
Não me estranho mais com minha selvageria
Meu grito alforriado não há mais o que revirar
Meu horizonte une os mundos que carreguei dentro do meu ser
Me cederam a força dos viajantes
Pra que em algum momento eu lembrasse a liberdade de um índio
Que aqui esteve antes de se colonizar meu verdadeiro Brasil

Georgia, 2017