Tuesday, April 18, 2017

Abismo da entrega

Eu que tenho uma vida dedicada a desaprendimentos
Assim os venero por amar me lançar em abismos
do quanto sou apaixonada pelas incertezas
e sou movida pelo entusiasmo que se gera ao me entregar
meu reencontro com Deus é necessário
Pois nasci para me lançar
Me desfazer do que sabia
Para abraçar o que nunca vivi
Seria uma suicida
Se não houvesse algo para me amparar
Eu me despenco como água de cachoeira
Pois só atravessando o que desconheço
Encontro denovo minha vontade de voar
E no berço da minha queda
Renasço para o que deixei desapegar
Abro os olhos no escuro
O vazio me fascina
Do outro lado eu nada sei
Sou seduzida por renascimentos
E poderei me eternizar comendo indefinições
Pois eu sou o instante que sucede a descontrução
E o abandono cego
Que se lança por haver a mais verdadeira esperança
Que o novo sempre será a minha única  provável cristalização

Georgia, 2017

Monday, April 3, 2017

Fruto do sentimento

Fruto do sentimento

Gosto de achar a mim mesma nas coisas simples
Sou como o fruto que eclode
O crescer que dentro do ventre já não mais pode
O sentimento do meu peito também explode
Doce, cítrico ou amargo, não importa
Todos sabores nos alimentam
Uma vez o fruto maduro no chão
Completo um ciclo
Para minha própria vida dou-me o desabrigo
Tudo se encerra em não mais para mim existir
Eu sou do outro
E de todo nutrir que abraça a realidade
Assim vivo sem casa
Eu sou sem morada
Sou o peito do outro, seu corpo, seu coração
Sou fruta que nasceu pra ser entregue
A oferta natural de quem pariu a doação
Para dentro do meu fim poder reincidir
Renascer tudo que só em si não será possível ouvir
No miolo da flor novo néctar há de produzir
Sou gestação intermitente
Que fruto nenhum esgota
A abundância é uma lei recorrente
Me renovo em todas entregas
Uma vez na mão do outro
A florada outra vez me espera
Afim de reiniciar a vida nesse eterno ir-e-vir

Georgia, 2017

Caçadora de referências


Caçei meu sentimento pela tara de farejar
Segui rastros
E não desisti de nenhuma pista
Não caminhei sozinha
Porque não faltaram vozes pra me guiar
Sofri de exclusão
De reflexos incoerentes que só a paciência pôde transpor
Rezei pro mato se romper
E nunca mais parei de me desencantar
A ilusão se despe quase sem pudor
O fim insiste em ser extremamente  sedutor
Mesmo quando o rio esteve seco
Guardei a Ingazeira na memória
Minha única referência que o tempo não iria repor
Mesmo quando no mundo falta amor
E a desunião grita com todo seu torpor
Nas referências me sustento pra seguir mesmo sem nenhum calor
Por todo investimento que ainda posso fazer
Não brilha mais o ouro que outrora mostrou algum valor
Por isso há uma potência que insiste no que me dá prazer
A jóia preciosa que nem meu ego conseguiu vender
E a Ingazeira me lembra que sempre há milagres ainda por ver
De todas curas que a desilusão permitiu transcender
Há uma esperança latente que o atabaque ressoou no meu ser
E a distância da aldeia não é o suficiente pra no bueiro me fazer escorrer
Insisto em flechas que capturem não apenas meu ser
A família é o valor mais precioso que insiste em me fazer viver

Georgia, 2017


Eu Sou


Verbo ser que em tanto se conjuga
São tantas coisas que existem
Dentro desse inquadrável verbo
Ser-mulher: ser-universo
Sou tudo que eu sentir ser
Aonde quer que haja vida
Tudo sou de alguma maneira
Em qualquer canto que se ressoe
Algum recanto que sem encanto ainda cante
Dentro do dó
Até o Si
Em todas as notas fui e serei

Não busco definições
Pois sempre há vida para além do foco da visão
Estou em todos os espaços
Antes do desejo, eu já era
Antes do que é real
Lá serei
Não há separação
A vida está em Tudo
Não há outra razão
Há muitas Vidas
Eu Sou

Georgia, 2017

Eu sou várias



A cada ciclo um novo gozo
Ser tantas águas em um só ser
Não só na poesia
Mas em todas luas que caminho
Descobri ser correnteza
Sou ondas sem fim
No fluir caminha a minha firmeza
Não sou como o Sol intransmutavel
Nasci mulher
Sou mil facetas
Como todas deusas que os livros permeiam
Não há mulher alguma presa em uma só cabeça
Não somos lineares
Mentira burguesa da vida patriarcal
Não espere uma única beleza
Somos tantas flores de rara beleza
É desafio diante de tanto enrijecimento
Fluir o ser mulher com um instinto que não é de brincadeira
Que jamais será apenas reflexo da falsa delicadeza

Georgia, 2017

Flor dá Atração

Flor da Atração

Quando tempo perdi longe de mim
Achando que no fruto estava meu fim
Eu sou a flor que se fecunda
A luz do outro é quem me inunda
Sou como uma taça que se preenche
A terra fértil que precisa de semente
Tudo cabe em meu coração
Meu peito aberto não conhece nenhuma limitação
Eu sou a vida contida na espera
Meu cheiro desperta a tara das libélulas
Meu gosto alimenta todas as borboletas
Há desabrochar mesmo quando não é primavera

Me polinizam apenas quem vem de casulos desintegrados
E habitam em territórios​ que na leveza foram colonizados
Não há o que buscar quando se nasce para receber
A flor só perde a haste pra que se possa do fruto comer

Sou o principio da fecundação
O óvulo que veio antes da concepção
O feminino que se iniciou no colo
Toda a vida que brotará do solo
Meu ventre é morada
O recipiente que guarda a substância a ser preservada
Coletor que guarda a água da chuva abençoada
A minha essência é receptiva
A luz do outro é quem me ativa
Eu sou o futuro
Fecunda-me

Georgia, 2017

Renascimento da Flor



Eu que só aprendi a me doar
Busquei em todos caminhos
Uma forma que o meu eu generoso pudesse brilhar
Desgastei até o fim minha doação
E na sina sem fim de dar o fruto
Fiquei muito tempo longe da recepção
E eu que quase nada sei sobre decidir
Pedi aos astros que a natureza intercedesse em meu parecer
Realinharam meu ritmo
E finalmente reencontrei a flor que me dá prazer
O meu instinto que também é receptivo
Me devolveu finalmente o meu equilíbrio
Pois ainda faltam muitos filhos para ver nascer
Nem só do fruto eu poderei viver
Me aconchego no miolo de todas as flores
Recebo de volta minha juventude
E o principio da minha vida pode ser tão bom quanto os resultados
Por sempre haver orgasmo no início de qualquer vida
O prazer explode diante de cada vida que há por vir
Trazendo consigo a inegável condição
Da fartura que enche o pé de manga na época da estação
E a garantia da doçura contida na maturação
Fechando o ciclo que o meu DNA repete sem discriminação

Georgia, 2017

Milagre da Flor

Milagre da flor

Quero falar aqui sobre o miolo da flor
Sobre o centro de todas as coisas
Sobre tudo que se espalha porque no centro havia flor
Ninguém rabisca a vida a esmo
Tudo sempre envolve o próprio ponto de partida
Na flor que me anima
Solitária condição
Que se despiu dos desertos silenciosos
E propagou pacientemente seu existir
Depois que a flor floriu
O entorno se avivou
E a flora trouxe de volta a fauna
Só há instinto se há folha
Ninguém é bicho sem antes semear
Eu semeei apenas uma flor
E o vento do deserto meu pólen espalhou
A flora se reinstalou
E da flor solitária brotou um jardim
e o Olho de Deus nunca mais fechou

Georgia, 2017


Predadora de Belezas

Ilustração novinha saindo do Cosmos 🌠🌠

Predadora de Belezas

Eu não vejo mais a vida com os mesmos olhos
A beleza me comove
E uma névoa transcendente envolve minha mente
Não tenho mais medo da loucura
Já vejo o entorno da maneira que eu quiser
Acendi uma lamparina em meu coração
E o que posso perceber ao meu redor
É efeito do prisma que toca tudo que meu olho envolve
Não caço mais inspirações
Apenas abro os olhos do peito
E não deixo mais de enxergar
A cegueira que se desfez
Devolveu minha lente clarificada
Semeio no chão mais lentidão
Para nenhum cheiro deixar de farejar
Eu só vivo para me inspirar
Sou predadora de beleza
Me seguro em cada pisada
Porque é irresistível o sabor da terra nos meus pés
Devoro o chão que me sustenta
E me misturo com a fertilidade do solo vivo em mutação
Nasci para dar forma aos cheiros
Me sirvo de toda selvageria
Venho do totem que me verticaliza
Da coruja ao crocodilo
Eu sou bicho da cabeça aos pés

Georgia, 2017

Criação da Liberdade



Minha liberdade nunca esteve a venda
Não culpo as interpretações restritivas
Afinal já estou estafada de reconsiderar
Não há culpados quando os equívocos se perpetuam
Cada julgamento mal elaborado
Apenas cansa meus pulmões diante de intermitentes repetições
De todas as flechas inapropriadas
Felizmente não sou comida de qualquer predador
Tantos anos de persistência
Só podem ter me recheado de paciência
De tudo que observo em silêncio
E respiro cansada
Larguei o fumo por pena dos meus pulmões
Que há vidas se cansam de julgamentos equivocados
Não seria a toa a Justiça meu astro protetor
Pois nem mesmo a Mãe tem o poder sobre as crias
Assim liberto tudo que nasce de mim
Não faço medições
Só sei criar o que vem no improviso
Não tenho o poder de medir a quem interessará
Não nasci para legiões manipular
Estou grávida e preciso dar à Luz
A tudo que não tenho o poder de comandar
Pois já estava escrito
Iemanjá tomará em seus braços
E conduzirá o filho liberto ao seu destino almejado

Georgia, 2017